Cata-letras


12/11/2007


Porque Dança.

Sua pele, seu perfume, seus pensamentos. O que de fato era dela? Não importava. Aqueles braços, que tanto lhe apoiavam, estavam lá, novamente, segurando-a como se ela fosse o penúltimo suspiro de suas vidas: firme e incerto.

A respiração tão, doutrora, notável, agora estava lenta e fugidia. O ar queimava os pulmões e lhe subia pela garganta como se algo o prendesse, arrastando, prendendo. Ela queria se aproximar, mas não sabia se devia. Não queria que a entrega fosse fácil... e o próprio orgulho a impedia de mostrar o quão vulnerável ele a deixava.

- Feche os olhos.

Seria um pedido ou ordem? Sussurros! Nunca sabemos se são promessas ou desejos...

- Confia em mim?

Apenas fechou os olhos... claro que confiava. Mais que em si mesma.

Mas a música não tocava. Outros casais se distanciavam, procurando o motivo. Eles, inertes, procuravam razões para se manterem tão únicos. Que importava se a música estava ou não tocando, se o próprio mundo havia parado?

Flutuavam sobre estrelas negras sem sequer notarem os abutres, deslizavam sobre águas nunca dantes tão líquidas, numa ditadura opcional, contractualista, de direito. Havia ritmos, cores, perfumes. Havia calores se equilibrando, havia energia. Espaço? Não se sabia sobre o espaço, só se sabia que o tempo estava próximo dele, mas muito longe dela. Ela não sabia o que fazia, nem o que seu futuro guardava. Só sabia que ele estava fazendo isso por ela e que, com ele, tudo estava arranjado. Não que via querubins, não que só houvesse felicidade. Mas borboletas surgiam e ela se encantava com tanto sentimento. Que haveria de ser? Não importava. Aqueles braços, que tanto lhe apoiavam, estavam lá.

Mas a música acabou e as borboletas resolveram descansar de suas piruetas. Ele era o mais especial do baile. Descolorindo, ela suspira, sem si.

Categoria: De recôndidos lugares
Escrito por Aila Terra às 23h55
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

01/11/2007


semente

Cedo ou tarde teria que realizar aquele projeto. Há coisas que são adiáveis... outras não. Destas que não são, adia-se ainda assim na esperança de que não será preciso fazê-las.

Começou aquele trajeto com muita paciência: queria que cada detalhe fosse observado, cada aroma percebido, cada sensação notada. Era um labirinto de espelhos. As paredes refletiam imagens infinitas e cada parte do seu corpo era multiplicada de tal forma que não se tinha por certo se havia muitas ou poucas imagens. Aliás: não se sabia se tinha realmente algo a refletir, o que se sabia é que havia algo no final, bem no centro, daquele embaraço. 

Cada passo que dava, era uma descoberta. Nem sempre eram descobertas de coisas boas... uma maldade aqui, outra acolá. Mas ainda assim preferia enaltecer a bondade, o caráter, os bons feitos. Bons feitos? Na verdade não achou feito algum. Mas ainda sou nova, pensava, farei feitos inovadores, equivocava-se. Não que fosse impossível fazê-los, já que lhe diziam que tudo é passível de acontecimento. Mas se até aquele instante não se fizeram feitos, certamente não haverá feitos de fato relevantes.

O chão era preto, observou, e o céu vermelho. Os espelhos nada mais refletiam do que o branco do infinito, como se houvesse paz lá longe, como se uma de suas imagens pudesse alcançar o puro, como se um dia o branco alcançasse tanta negrura, tanto sangue. Traria, o branco, o tempo? Amanhã sempre parece ser mais possível de se realizar feitos mas apesar de o algodão sempre vir de folhas verdes, nem de todas as folhas verdes vem algodão.

Mas se perdeu ao meio de tantas reflexões. Decidiu adiar novamente... afinal, ainda estava nova... devia ter tempo para aquilo.

Categoria: De recôndidos lugares
Escrito por Aila Terra às 22h05
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

29/09/2007


Enumeração Sinfônica

letra aqui
letra acolá
palavras magi
palavras cas

cola daqui
cala de lá
consente Dali
nem sente de cá

agrupa fa
conjunto com mi
sol-te um lá
sem dó do ré-si

para ter vies
é simples, je crois:
absorve daqui
catalisa de cá
as letras daqui
mais as acolá.

Categoria: De recôndidos lugares
Escrito por Aila Terra às 14h49
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Sobre papel

Chance para dar vida ao que ainda é de faz-de-conta.

 

Categoria: De recôndidos lugares
Escrito por Aila Terra às 14h48
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Sobre papel (II)

Espaço para brincar de ser Deus.

 

Categoria: De recôndidos lugares
Escrito por Aila Terra às 14h48
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Sobre Papel (III)

Condição de existência para escrevedores e escritores.

Categoria: De recôndidos lugares
Escrito por Aila Terra às 14h47
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Love in Chess

Ela sempre fora livre... desimpedida. Poderia ir aonde quisesse, sempre que quisesse. Sempre. Até ele aparecer. Ele chegou tímido... como quem não queria nada. Mas ele podia ir aonde quisesse. E ambos sabiam disso. Só que ele era mais centrado e cauteloso... ia sempre em passos curtos e planejados, enquanto ela se movia sem destino.

Ela expansiva.
Ele recluso.

Ela impetuosa.
Ele reservado.

Ela impulsiva.
Ele calculista.

Ela parecia ser forte em tudo. Capaz de tudo. Até que ele se tornou o seu ponto fraco. Ela se encontrou com ele e se dedicou a unir os seus reinados. Ela passou a protegê-lo. E ele a deixava segura. Às vezes perdiam batalhas, mas sempre recomeçavam... juntos... lado a lado. Ela sempre arriscava a própria vida pela dele... E ele sempre se preservava por ela. Porque sem ela, não havia sentido. Porque sem ele, morreria.
Sempre jogam na vida estrategicamente. Criam planos, governam com sabedoria. As possibilidades são tamanhas, mas ele sabe que ela é a sua maior arma, o bem mais precioso, a peça mais importante. Ela sabe da sua importância. E às vezes se arrisca só para ver como ele reage. Ela é fiel. Ele é um eterno amante.
Ela tem superpoderes, podendo ressuscitar, ou duplicar, dependendo da vontade dele, que sacrificaria um dos seus para tê-la.
Talvez seja pela possibilidade de ter 8 vidas que ela se arrisque tanto. Mas ela não se importa: daria as oito por ele. Porque a vitória dele, representa a vitória dela. E a derrota dele, a morte dela.

Categoria: De recôndidos lugares
Escrito por Aila Terra às 14h46
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Ômetros®

Ômetros®, a nova sensação.

Definitivamente, se há um aparelho que será um nova sensação no mercado, este é o da Ômetros®.
Ao contrário do que muita gente pensa, ele não é comprado na farmácia. Na verdade é muito mais complicado... A Ômetros® possui apenas uma central de distribuição em cada país. E os pedidos já ultrapassam a marca de milhões.
Os produtos, como o nome sugere, servem para medir. O campeão de vendas é o Desconfiômetro, também conhecido por "Semancol". Suas funções são básicas, mas a popularidade é alta. Isso é porque muitos não sabem a hora de se mancar e, distraídos, acabam dando uma mancada. Acredita-se que os pedidos eclodiram depois de sair outro produto da Ômetros®, o Desconfiex. Ele teria, de uma forma ainda desconhecida, feito as pessoas buscarem mais o lado sistemático da vida.
Outro produto muito famoso é o Feômetro. Muitos consumidores acusaram a Ômetros® de propaganda enganosa por confundir o Feiômetro com o Feômetro. A Igreja Católica está em constantes conflitos por achar que as freiras pretendiam saber o nível de beleza, sendo acusadas de vaidosas. Elas contestam: "nós só queríamos certificar que a nossa fé está crescendo a cada dia"!
O mais cobiçado é, sem dúvida mas com dívida, o Culpômetro. Os cônjuges estão parcelando em até 3 décadas o pagamento do famoso medidor de culpa. O preço é justificado, pois acompanha um Amômetro e Amímetro que prometem medir, respectivamente, amor e paixão.
Entre diversos outros, estão o Ciumômetro, Invejômetro, QIômetro, Mentirômetro e, o mais básico deles, Quilômetro, que mede quantos quilogramas um corpo tem (limitação em 200Kg).
Embora esteja escrito enormemente nas caixas dos produtos: "Os dados fornecidos por estes aparelhos não correspondem à realidade", muitos os compram. O jornal "Tempo" perguntou para o presidente da Ômetros®: "Qual é o motivo desse grande fluxo de mercadorias se eles não fazem mesmo o que os consumidores querem?". A resposta foi: "Todos os dias há pessoas que lêem horóscopos, acreditam em alienígenas, fingem que seus cônjuges são fiéis, recomeçam uma dieta, fazem promessas, pagam impostos e mantêm os seus votos a um político que sabem ser desonesto. Foi apostando nessa fé, nessa positividade e nessa esperança que a Ômetros® surgiu. Porque quando as pessoas vêem que os horóscopos não têm nada a ver, que nunca houve um fato que comprovasse a existência de ETs, que o marido cantou a empregada ou que a esposa jogou charme para o melhor amigo etc, aí que elas acreditam mesmo que essas coisas são confiáveis".

Categoria: Criticando
Escrito por Aila Terra às 14h46
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Do mundo que criamos

Era uma vez um povoado muito, muito distante. Todos os dias eles faziam tudo sempre igual: acordavam às 6h da manhã, sorriam um sorriso pontual e iam plantar e colher hortelã. Eles amavam hortelã.
Contudo, a plantação ficava longe do rio... eles tinham que buscar baldes e mais baldes de águas que banham aldeias e matam a sede da população. Então planejaram e construíram toda uma encanação! (não houve intenção de rima... acontece tão naturalmente... oh!).
Tudo começou uma brincadeira e foi crescendo, crescendo... Ficara tudo mais fácil! a produção dobrou e havia tanta fartura que quilos de hortelã eram jogados fora.
Mas como eles preferiam ser uma metamorfose ambulante do que ter uma velha opinião formada sobre tudo, eles tiveram uma brilhante idéia: criaram a máquina. A máquina substituiu o homem e o homem se aliou à máquina. Ficara tudo mais fácil... a produção triplicou, menos pessoas precisavam trabalhar e havia tanta fartura que toneladas de hortelã eram jogadas fora.
Porém, estes indivíduos comiam tanta coisa (balas, bolos, doces, chás... de hortelã) e exercitavam tão pouco que começaram a ter problemas de saúde... eles, além de sedentários, estavam respirando ar poluído (por causa das máquinas) e estavam muito tristes porque não mantinham mais contato com seus amigos de trabalho, entrando em profunda depressão.
Então ele (o Homem) tomou algumas soluções. Inventou-se a televisão -- e ninguém sentia-se mais tão só... -- inventou-se o funcionarismo público -- e todos podiam se encontrar para bater papo e receber créditos para comprar hortelãs -- criou-se a idéia de dar voltas no quarteirão -- para emagrecer e ter uma vida saudável -- manipularam hortelãs diet -- para que as pessoas pensassem que podiam comer muito e diminuir o excedente.

Categoria: Criticando
Escrito por Aila Terra às 14h41
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Incondicional

Foi então que eu o vi de outros olhos. O vi de forma tão parecida comigo... e ao mesmo tempo tão incompatível. Não! Não era o que eu queria... muito menos o que eu esperava. Meu amor crescia tanto e proporcional à sua complexidade. Paradoxo. Antítese. Tudo o mais que é oposto. Rasgava em meu peito. Gritava dentro de mim. Não sabia o que fazer... chorei. Chorei... mas não com lágrimas, mas com sangue. Sangue que fervia dentro de mim. Fervia de vontade de dizer-te, oh meu Brasil, como te quero bem. E enquanto eu dizia que nenhum de nós fugiríamos à luta, senti vergonha. Senti desprezo. desprezo por mim. Desprezo por ti. Desprezo que ambos sentimos, enfim. E o frio lá de fora, congelou o meu sangue. Que até agora está inerte diante da nova face. Diante de minhas novas visões. Diante do que vi em tua terra. Tão inerte quanto aqueles que eu crucificava. Que eu, hipócrita, crucifico.
Mas ainda assim, amo-te. Amo-te mais do que qualquer outrem poderia.

Categoria: Nacioniota
Escrito por Aila Terra às 14h40
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Comparações e Metáforas

É como ouvir sua música predileta no rádio. Você coloca o volume bem alto até poder sentir que o ritmo encaixa-se com seu coração.
É como um abraço de saudade ou de despedida. Abraço bem dado. Daqueles de verdade!
É como se a felicidade fosse o único meio de respirar. O único meio de viver a vida intensamente, sem perder um segundo de um dia ensolarado, nublado ou chuvoso.
O que importa é a independência da natureza que mantém a sua harmonia de luz, cores e som, em qualquer tempo ou espaço.
É aquela fé de que tudo é possível.
De repente a vida se torna simples como sempre foi, mas nunca pudemos percebê-la assim pela imensa falta de esperança.
É como se "todos os dias Deus pintasse um espetáculo no céu" só para lembrarmos que Ele existe e nos quer realizados.
E tudo fica mais claro: a vida é uma fantasia, uma surrealidade mal interpretada. Pois não há nada de triste, de ruim.
Somos os únicos que podemos tornar o Sol muito quente.
A chuva muito forte.
A vida complicada.
O tempo muito curto.
Os dias muito difíceis.
O livro muito chato.
O trabalho muito cansativo.
As pessoas imperfeitas com seus numerosos defeitos.
O arco-íris muito fraco.
O mundo de faz-de-conta muito falso.
É como uma saudade incessante.
É como acreditar em papai-noel.
É como curar-se de algo ruim, seja doença ou peso de consciência.
É como sentir o hino nacional.
É como ter certeza de que um dia tudo irá se resolver.
É como receber um presente de uma criança feito por ela mesma.
É como ajudar alguém.
É como receber uma ligação esperada.
É como ser perdoado.
É como sentir-se em perfeita sitonia.
É eufórico.
É ardente.
É inspirante.
É lindo.
É como se nada no mundo pudesse estragar o seu momento.
Afinal a vida parece ser muito mais viva.
É sanida a indagação do porquê de se estar vivo. Não que o porquê realmente importe. Pois é um milagre. Um mistério. E mistérios não foram feitos para ser entendidos e sim para serem vividos. É exatamente isso que amar é.

Categoria: De recôndidos lugares
Escrito por Aila Terra às 14h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Da Hipocondria

Doença-maníaco

É perigoso afirmar "a pior coisa do mundo é...". Mas... me arrisco a dizer que uma das piores coisas do mundo é a doença. Ainda mais neste século... onde tudo virou doença. Não... não é porque algo excessivo seja realmente uma doença. Mas é um problema... e pra todo problema (deveria) tem solução. Solução não. Remédio. Aí que encontramos uma Pessoa que espirrou de manhã e já comprou 75% do estoque da farmácia. Também já tomara outras providências... marcou consulta com 6 médicos: 2 de cada especialidade. Afinal, hoje em dia precisa-se verificar opiniões de médicos, dando, pelo menos, duas visitas! Além disso... nunca se sabe se o seu problema está na parte posterior, anterior, central, centralizado à oeste ou a leste da gengiva. .

E, como no caso do nosso protagonista, Pessoa, foi um espirro... e não sabe se aquilo era devido à poluição, algum problema imunológico, um resfriado, um câncer (sim... porque uma vez, Pessoa viu na televisão que um médico não soube diferenciar gripe de câncer), culpa do seu cachorrinho Cão ou da gata Gatinha ou ainda, apenas uma micro-poeira que entrou na sua narina.

Pessoa, além de comprar vários remédios sem prescrição, foi a um veterinário especializado em cães para levar o Cão e outro especializado em gatas para levar a Gatinha. Depois levou-os a outros profissionais, para confirmar que seus animais não estavam causando-lhe nenhum problema.

Depois de se consultar com 2 médicos gerais, 2 médicos especializados em alergia e 2 médicos especializados em câncer de pulmão, Pessoa fez uma bateria de exames e aproveitou para fazer um "check up". Muito incomodado com a notícia de que ele não estava doente, Pessoa decidiu visitar uma médium para ver se havia algum espírito rondando seu corpo. E ele não tinha espíritos a sua volta.

Pessoa foi a um psicólogo. Depois em outro. E ambos disseram que ele estava com uma mente saudável. Ao fim, Pessoa fora para o prédio da praça e pulou da cobertura. Alguns dizem que ele estava doido. Outros... também. E todos afirmavam que ele estava muito insatisfeito porque ninguém achava a cura para o seu mau. Quando perguntavam-lhes qual era o mau, respondiam: "ninguém achava isso também".

Categoria: Criticando
Escrito por Aila Terra às 14h35
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Histórico